"O amor da minha vida eu encontrei, tem nome, é de carne e
osso, e me ama também. Agora falta encontrar alguém com quem possa me
relacionar. É que o homem da minha vida não cabe em mim e eu não caibo nele. Não
basta que a gente se queira. Não basta nossos namoros, os rompimentos
e a teimosia de desejar mais daquilo que não há de ser. Não presta que
ele me visite pra acabar com as saudades e fuja correndo de pernas
bambas e um bumbo no peito. Não importa que eu esqueça meu nome depois, nem que
me perca num oco, ou que os sentimentos corram de ambos os lados, intensos e
desarvorados. Não basta que haja amor para se viver um amor. Eu e ele somos as
cruzadas da idade média, o Osama e o Tio Sam, o preto e o branco da apartheid,
o falcão e o lobo, o Feitiço de Áquila. Seus mistérios me
perturbam e minha clareza o ofusca. Tenho fascínio pelo
plutão que ele habita, e ele vive intrigado por minha vênus, mas quando eu
falo vem, ele entende vai. Enquanto ele avista o mar eu olho pra montanha.
Quando um se sente em paz o outro quer a guerra. É preciso me traduzir a cada
centímetro do caminho enquanto ele explica que eu também não entendi nada.
Discordamos sobre o tempo, o tamanho das ondas, a cor da cadeira. O desacerto é
de lascar, e não há cama que resista a tantas reconciliações - um dia a
cama cai."
- Maitê Proença

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